sábado, 19 de fevereiro de 2011

Multinacionais remetem US$ 30 bilhões para o exterior

Em matéria publicada na CartaCapital de 16/02, os professores Fernando Sarti e Célio Hiratuka fazem importante alerta sobre a condução da política econômica brasileira.

De acordo com dados divulgados pelo Banco Central, apenas em 2010, as empresas multinacionais no Brasil remeteram para suas matrizes no exterior nada menos que US$ 30 bilhões.

E as remessas bilionárias de 2010 não foram uma exceção. Em 2009 as multinacionais remeteram US$ 25 bilhões e em 2008, no auge da crise, atingiram o recorde de US$ 33 bilhões.

Ou seja, as empresas multinacionais retiram dinheiro do país para compensar os prejuízos que tiveram nas outras regiões do planeta, em particular, nos países centrais.

Esses números são importantes por duas razões principais.

A primeira é que revela a falácia da defesa da liberalização dos fluxos de capitais internacionais com base no Investimento Direto Externo (IDE).

IDE é a modalidade de fluxo de capital em que o capital entrante é investido na construção de novas indústrias ou na compra das já existentes. Supostamente, esse seria um "capital bom" pois estaria gerando riqueza no país.

Ora, como os números acima demonstram, o dinheiro que entra via IDE é, depois de valorizado, enviado de volta através da remessa de lucros. Além disso, a parte do IDE que é utilizada na compra das empresas já existentes não cria, a princípio, nenhuma riqueza nova, representando apenas a transferência de controle da empresa. Esse é o caso, por exemplo, do IDE que entrou no país para comprar as empresas privatizadas.

A segunda questão levantada pelos números do BC é sobre as condicionalidades que o governo deve exigir das empresas que conseguem benefícios fiscais e financiamentos subsidiados.

Como revela a matéria de CartaCapital, a indústria automobilística, a campeã em isenções fiscais por parte do governo brasileiro, foi também a que mais remeteu lucros para suas combalidas matrizes no exterior.

Um governo que retira impostos e concede empréstimos subsidiados deve, no mínimo, estabelecer metas e diretrizes para as empresas beneficiadas como, por exemplo, garantir bons salários e estabilidade para seus trabalhadores.

A pior das hipóteses é manter-se apegado aos preconceitos neoliberais de eficiência dos mercados. Uma miopia que custou, apenas nos últimos três anos, quase US$ 100 bilhões.

PS: já comentei (aqui) que o governo está prestes a cometer erro semelhante na questão da transferência de tecnologia na compra dos novos caças da FAB.



2 comentários:

  1. Então se houvessem mais autuações e com mensuração do passado, do que se perdeu e se perde, e futuro, do que possívelmente se perderá. A dívida externa estaria paga e ainda sobraria??? E aí doutores?

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  2. Parabéns pela matéria e pela maturidade. Falta este tipo de amadurecimento no nosso país, na sociedade brasileira e mundial. O ano passado foram quase R$500 Bi em sonegação também no computo geral, segundo alguns blogs respeitados...

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