domingo, 31 de janeiro de 2010

A Taxa de Câmbio da Venezuela


Tão logo o governo da Venezuela anunciou uma mudança em sua política cambial, o PIG colocou seus economistas de plantão para dizer que o país caminha "inexoravelmente para o caos econômico".

Bom, não tenho conhecimento suficiente sobre a economia do nosso vizinho para refutar em detalhes todas as críticas. Porém, desconfio que os críticos também não o tenham, o que, infelizmente, não os impediu de decretar o "completo desajustamento" da economia da Venezuela.

Sendo assim, me dou ao direito de também tecer alguns comentários "em geral".

A taxa de câmbio da Venezuela era fixada em B$2,15/dólar (um dólar valia 2 bolívares e 15 centavos). Com as novas regras, passam a existir duas taxas de câmbio. Um aplicada aos bens considerados essenciais, fixada em B$2,6/dólar e outra para os demais bens, fixada em B$4,3/dólar.

Apenas com o valor da taxa de câmbio antiga, 2,15, não tenho como saber se ela estava valorizada ou desvalorizada. Seria preciso comparar esse número com uma série histórica ou com o preço de uma cesta de bens vendidos na Venezuela e seu respectivo preço em dólar.

Como não disponho desses dados, suponho que o bolívar estava valorizado. Acho isso porque a Venezuela é membro da OPEP e um dos maiores exportadores de petróleo do mundo. Em geral, países assim são superavitários em suas transações correntes (devido aos altos preços do petróleo e à constância de sua demanda) o que pressiona o câmbio a valorizar-se.

Quais as vantagens e desvantagens de se ter um câmbio valorizado?

A vantagem é que os produtos importados ficam mais baratos, o que pode contribuir para conter a inflação. Por outro lado, os preços mais baixos dos importados representam uma concorrência "desleal" com a indústria nacional, o que pode impedir seu desenvolvimento.

Parênteses rápido: Esse é, aliás, o mecanismo da chamada "doença holandesa".

Como se sabe, a estratégia econômica de longo prazo da revolução bolivariana é utilizar os recursos do petróleo para industrializar o país (aqui). Antes dela, a Venezuela se contentava apenas em exportar petróleo sem agregar valor, o que acabava beneficiando apenas a burocracia em torno da PDVISA.

De acordo com declarações do governo, a mudança cambial se insere no âmbito dessa política de industrialização por substituição de importações (quando li esse nome comecei a perceber o motivo do ódio do PIG contra a medida). Esse foi o modelo utilizado na industrialização do Brasil e vigorou até a implantação do neoliberalismo (Collor/FHC).

O objetivo da desvalorização é encarecer os produtos comprados no exterior e baratear os produzidos internamente para favorecer a indústria nacional, criando condições para que ela substitua os bens que antes eram importados. É interessante notar que ao mesmo tempo que anunciou as novas taxas de câmbio, o governo anunciou também a criação de um fundo no valor de U$ 7 bilhões para financiar o investimento produtivo.

Para minimizar os efeitos negativos do aumento dos preços dos importados é que se criou uma dupla taxa de câmbio. Para os bens considerados essenciais a desvalorização foi bem menor.

Evidentemente, essa medida desagrada os setores mais ricos que são os principais consumidores dos bens "não-essenciais" e que pagarão mais caro por eles.

Não há como dizer com absoluta certeza se essa estratégia dará certo. A industrialização nunca é um processo tranquilo e sem percalços. Mas a alternativa de continuar sendo um mero exportador de produtos primários é bem pior.

Enfim, os que condenam a priori a iniciativa venezuelana parecem guiados pelo preconceito, que nunca é um bom conselheiro mas que, no Brasil, garante 15 minutos de fama no PIG.

Clique aqui e aqui para ver declarações do governo sobre a mudança e aqui para ver o decreto do Banco Central da Venezuela.



sábado, 30 de janeiro de 2010

Cara-de-pau Financeira


Os executivos das principais instituições financeiras do mundo organizaram uma reunião paralela ao Fórum Econômico Mundial, que acontece em Davos, na Suiça.

A reunião ocorreu a portas fechadas e foi realizada, apropriadamente, nos fundos do Centro de Convenções onde acontece o Fórum. Entre os presentes estavam os representantes do Bank of America, UBS, Deutsche Bank, Credit Suisse, Barclays e HSBC. Como se vê, a nata das finanças internacionais.

Pauta da reunião: discutir as estratégias para aumentar a influência dos bancos sobre os governos e as agências reguladoras.

Ora, os governos dos países capitalistas gastaram trilhões para impedir a - merecida - falência desses bancos.

Milhões de trabalhadores perderam seus empregos, enquanto que os executivos financeiros não aceitaram sequer que seus astronômicos salários fossem reduzidos.

Agora, esses senhores traçam estratégias para mandar (ainda mais!) nos governos!!

Para completar, Brian Moynihan, alto executivo do Bank of America, ainda saiu-se com essa: "Estamos tentando conceber maneiras pelas quais possamos nos engajar mais."

Haja cara-de-pau!

Fonte: Valor Econômico, 29/01/10, p. A10

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O terceiro turna da eleição para presidente


Apesar dos vários prognósticos, ainda é muito cedo para uma previsão sobre como serão o primeiro e o segundo (se houver) turnos da eleição deste ano.

Entretanto, as manobras para o terceiro turno já começaram.

Terceiro turno?

Exatamente. Quando o consórcio PSDB/PFL for mais uma vez derrotado na eleição presidencial, é certeza que eles entrarão no STF alegando que houve "abuso de poder" nas eleições. Tentarão ganhar no STF o que não conseguirão nas urnas. É o terceiro turno das eleições.

O líder da oposição e presidente do Supremo, Gilmar Mendes, já deu o recado devidamente repercutido no PIG:

"Tem que haver um critério único para aferir a campanha antecipada. Não se pode usar um critério para prefeito, governadores, e outro para presidente da República. Só digo que a Justiça Eleitoral tem que primar por um standard (sic) único", disse Gilmar Mendes.

Para que não restem dúvidas, o PIG explica:

"Mendes havia cobrado rigor da Justiça Eleitoral no julgamento de casos de propaganda eleitoral antecipada que envolvam o "presidente da República, ou o seu candidato'". (aqui)

Só em tom de piada se pode dizer que há propaganda anteciapada a favor da candidatura da Dilma.

Pelo contrário, o PIG gasta toneladas de papel e tinta em editoriais reacionários e crises inventadas para alavancar a candidatura de José Pedágio. É esse o standard de atuação do PIG.

E isso porque ainda estamos em janeiro!



terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O PIG não se cansa: quer derrubar o Chavez de qualquer maneira.


Desde a noite da segunda-feira, o PIG do Brasil e do mundo tem dado enorme destaque à renuncia do Vice-presidente da Venezuela, Ramón Carrizalez.

Conforme o próprio PIG relata, Carrizalez deixa o cargo por motivos pessoais (entretanto, os jornais colocam esse argumento entre aspas, dando a entender que ele não é verdadeiro).

A nota divulgada por Carrizalez é clara. "A saída não se produz por nenhuma discordância com as decisões do governo e qualquer versão diferente do que foi argumentado para a renuncia é falsa e tendenciosa", diz o ex-vice-presidente.

O próprio Chávez expressou seu agradecimento pelo esforço e compromisso de Carrizalez durante sua gestão. (aqui)

Mas PIG não aceita os fatos. Seu objetivo indisfarsável é derrubar o Chávez.

Por isso, logo após noticiar a renúncia de Carrizalez, passam a falar do retirada do sinal do canal RCTV.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra!

Mas se o PIG quer discutir o caso da RCTV, vamos a ele:

Em 2007, o governo da Venezuela não renovou a concessão pública da RCTV. A televisão foi uma das principais organizadoras e apoiadoras do golpe de abril de 2002. (aqui)

Observem: Mesmo tendo participado ativamente do golpe, a RCTV não foi fechada de imediato. Sequer houve quebra de contrato. O governo esperou o término da concessão anterior.

Na época, o até o presidente da OEA, José Miguel Insulza, se recusou a atender o pedido dos Estados Unidos para que esse episódio fosse investigado. (aqui)

A RCTV continuou transmitindo seu sinal para a TV a cabo. Entretanto, pelas leis venezuelanas, 30% da programação tem que ser de conteúdo nacional. A RCTV e outras emissoras se recusaram a cumprir a lei e por isso tiveram seu sinal retirado.

Aliás, uma delas, a TV Chile, já declarou que pretende voltar atrás e cumprir as leis do país. (aqui)

A RCTV se negava, inclusive, a transmitir os comunicados oficiais do governo.

O que deve fazer um governo com uma empresa que age de tal maneira?

Tentar unir a renúncia do vice-presidente com a retirada do sinal da RCTV é apenas mais uma tentativa de desestabilizar o governo do presidente Hugo Chávez.

Qualquer problema enfrentado pelos venezuelanos é saudado com entusiasmo pelo PIG e propagado ao mundo inteiro em fração de segundos. Por outro lado, os inúmeros avanços e conquistas da revolução são escondidos a todo custo.

Notem que o PIG manda os escrúpulos às favas e refere-se à RCTV como um canal de TV de oposição (assim mesmo, sem aspas). Ora, e a neutralidade e imparcialidade jornalísticas?

Danem-se! O importante é derrubar o Chávez!

O PIG acha que seus (poucos) leitores são idiotas.

Mais uma vez, o PIG está errado.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ações das empresas de Piñera sobem 100% na Bolsa de Valores


A campanha do direitista Sebastián Piñera, recém eleito presidente do Chile, centrou-se em sua suposta capacidade gerencial e empreendedora. Como se sabe, ele é um dos homens mais ricos do país.

Se o mandato do presidente-empresário fará bem ao Chile, ainda não podemos dizer. Mas, certamente, será ótimo para as empresas de Piñera.

Apenas 4 dias após o resultado da eleição, as ações da Axxion, holding que controla as empresas do presidente eleito, tiveram inacreditáveis 100% de aumento na Bolsa de Valores. Agora, o valor de mercado da Axxion é de US$ 2,1 bilhões. (Valor Econômico, 22/01/10, p. A7)

A Comissão de Valores Mobiliários do Chile disse que vai investigar.

Por sua vez, Piñera, candidamente, disse que não acompanha o movimento das bolsas.

Nada mal para apenas uma semana, não acham?


domingo, 24 de janeiro de 2010

Comissão da Verdade

"Aos grandes homens, a pátria agradecida"
Inscrição do Panteão Francês




Por que precisamos de uma Comissão da Verdade?

Porque a verdade precisa ser dita!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Choque de Gestão - Parte 1


Por sugestão do site Conversa Afiada, o Correia de Transmissão assistiu à entrevista do engenheiro e professor da USP, Julio Cerqueira César, sobre as enchentes que paralisam São Paulo e tornam um pesadelo a vida da população pobre da cidade.

O Prof. Julio divide a as enchentes em dois tipos: as de responsabilidade do governo do estado e as de responsabilidade da prefeitura.

(Veja aqui como a prefeitura do PFL pretende gastar 5 vezes mais com publicidade do que com o gerenciamento de áreas de risco.)

Sobre as enchentes que deveriam ser contidas pelo trabalho do governo de José Pedágio, o Prof. Julio explica:

1 - Houve um erro nos cálculos feitos, em 1986, para a construção da calha do rio Tietê. Estimava-se que a vazão do rio era de 1 mil m3/s. Dez anos depois, já com a obra em andamento, verificou-se que a vazão real do rio era de 1,4 mil m3/s.

2- Para corrigir o erro, a única alternativa era a construção de 134 piscinões para reter a vazão extra.

3- Entretanto, desde que esse problema foi avaliado, há mais de dez anos, os sucessivos governos do PSDB construíram apenas 43 piscinões. Faltam 91!!!

4- Como se não bastasse, além dos piscinões é preciso também retirar, anualmente, toneladas de materiais do fundo do rio para evitar seu assoreamento. Porém, em mais uma demonstração de eficiência, o governo de José Pedágio não retirou nem um grãozinho nos anos de 2006 a 2008.

Veja aqui a entrevista do Prof. Julio e entenda o significado do "choque de gestão" dos tucanos.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O que houve no Chile?



Infelizmente, o Correia de Transmissão errou ao cravar, em 13 de dezembro, que o candidato da direita chilena, Sebastián Piñera, seria derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Encerrada a apuração, Piñera teve 51,6% dos votos contra 48,39% do candidato governista Eduardo Frei, de centro-esquerda.

Frei é da mesma coalizão (Concertación de Partidos por La Democracia) que dá sustentação ao governo da atual presidente, Michelle Bachelet que acabará o mandato com índices de popularidade na casa dos 70-80%.

Como pode um governo com 80% de aprovação não eleger seu sucessor?

Na minha opinião, a Concertación deveria ter apresentado um programa de governo mais progressista, que mobilizasse a sociedade e alinhasse o país mais decididamente no processo de mudanças que ocorre na América Latina.

Ao invés disso, não conseguiu ir além do discurso tecnicista, que é importante, mas que não pode substituir a Política (com P maiúsculo). A própria escolha do candidato governista já indicava uma campanha "morna". Frei, além de ser um ex-presidente(1994-2000), sequer representa a fração mais à esquerda dentro da própria Concertación.

A primeira consequencia dessa opção foi a divisão das forças de esquerda. O deputado Marco Enríquez-Ominami saiu da base governista e lançou-se candidato independente. Mesmo sem a estrutura dos grandes partidos, conseguiu respeitosos 20% dos votos no primeiro turno, mostrando que, de fato, os chilenos esperavam mais do candidato "oficial" da esquerda.

A segunda consequencia negativa foi ainda mais decisiva: altos índices de abstenção, principalmente entre a juventude.

Com as forças divididas, sem o apoio da juventude e munidos com um programa sem grandes avanços, a Concertación foi derrotada pelo milionário Piñera, uma espécie de Berlusconi chileno, dono de meios de comunicação e de um dos mais populares times de futebol do país, o Colo-Colo.

Assim, depois de 20 anos, os partidos que participaram da ditadura de Pinochet estão de volta ao poder no país de Victor Jara.

Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, certamente comemorou a possibilidade de ter alguém pra dividir o peso de carregar a bandeira dos Estados Unidos em nossa região.

Nos anos em que esteve no poder, a Concertación não construiu uma verdadeira alternativa popular que rompesse com o modelo neoliberal herdado de Pinochet. Sem isso, tornou nebulosa suas diferenças com a direita.

Aqui, no Brasil, não podemos cometer o mesmo erro.

Leia outros textos sobre a vitória da direita no Chile em CartaCapital e CartaMaior.


domingo, 17 de janeiro de 2010

Quem é Quem - Parte 1 - Lucia Hoppolito




Você pode encontrar nossa personagem de hoje em qualquer um dos meios de comunicação da Globo. Seja no rádio, na TV, no jornal ou na internet, é fácil achar a Sra. Hippolito falando mal de qualquer política de esquerda, seja no Brasil ou no mundo.

Obviamente, seus comentários conservadores são "técnicos". Em seu blog, ela se apresenta como cientista política, historiadora, jornalista e especialista em eleições e partidos políticos.

Entretanto, apesar de todas essas honrarias acadêmicas, Lucia Hippolito chamou a atenção desse blogueiro com um comentário esportivo. Em 2008, quando a seleção nacional ia mal das pernas, Lucia resolveu procurar um culpado para o fraco futebol dos nossos jogadores.

Adivinhem quem ela escolheu?

O Lula, é claro!

Isso mesmo. A Dra. Lúcia Hippolito disse que a culpa da seleção jogar mal era do Lula!!

Duvida? Clique aqui

O argumento era que o Lula dá mal exemplo à nação, pois ele se candidatou à presidente do país "sem nunca ter feito nada". Assim, o Dunga "que nunca foi técnico nem do time da esquina da rua dele, acha que pode ser técnico da seleção."

É claro que sobrou para a Dilma que também "nunca administrou nada e acha que pode ser candidata a presidente."

Lucia Hippolito é também uma das "Meninas do Jô". No programa, de uma maneira "informal e descontraída", ela continua sua cruzada contra os despreparados.

Recentemente, nossa personagem transformou-se num hit da internet. Visivelmente alterada, Lúcia entrou ao vivo na rádio CBN sem conseguir dizer coisa com coisa e até trocou o nome do apresentador de Nonato para Lolito!! (veja o vídeo acima).

Em seu blog, ela se justificou do mico dizendo que teve uma dor de barriga e foi correndo para a banheiro (aqui).

Porém, mesmo nesse estado, Lucia Hippolito ainda conseguiu dizer que o Programa Nacional de Direitos Humanos foi um erro político.

Portanto, da próxima vez que você ouvir a Lucia Hippolito, no rádio ou na TV, com ou sem diarréia, tenha certeza: É PIG!!!!!!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Lula não tem Carisma


O título dessa postagem é, obviamente, um absurdo.

Mesmo assim, acho que é menos errado do que as pseudo-análises que atribuem a alta popularidade do Lula ao seu "carisma".

O Lula é popular porque o povo, para desespero da Direita e do PIG, compara o governo do Lula com o governo do PSDB/PFL.

Simples assim.

Uma conta rápida. A aprovação do presidente é de 84%. A do seu governo é de 72,5% (aqui). Portanto, apenas 11,5% da popularidade do presidente é devido ao seu "carisma".

Não que o governo Lula seja bom. Henrique Meireles, Reynolds Stephanes e Nelson Jobim não me deixam mentir.

Mas nada se compara ao desastre nacional que foram os oito anos de FHC, o nefasto.

Essas análises do "carisma" do Lula acabam sempre com a história de que a Dilma não tem esse dom. (Não sem antes nos lembrar que o carisma é um característica comum aos ditadores e aos governantes populistas).

No fundo, acho que é esse o objetivo. São mal-disfarçadas peças publicitárias que ficam na torcida para que a Dilma não ganhe as eleições.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Mão Amiga


"Só as páginas dos livros se viram, as da vida, não."
José Saramago

Imaginem a seguinte cena:

No intervalo entre o Jornal Nacional e a Novela das 9, a transmissão é interrompida para um pronunciamento oficial.

A princípio nada de mais. Entretanto, para surpresa da nação, eis que surgem os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Frio na espinha. Golpe Militar?

Não!

Esses militares estão na TV para fazer algo que já deveria ter sido feito há mais de 20 anos.

Em primeiro lugar, os comandantes, falando em nome das Forças Armadas do Brasil, pedem o mais sincero e humilde perdão ao povo brasileiro pelo Golpe de 1964.

Depois, reconhecem o extremo altruísmo e patriotismo dos homens e mulheres que morreram lutando pela volta da democracia.

Como parte desse reconhecimento, abrem todos os arquivos da Ditadura e prometem se empenhar, tal como um paciente que luta contra um câncer, a extirpar das Forças Armadas todos os vestígios de golpismo, assegurando a justa punição aos torturadores.

Por fim, reafirmam seu compromisso com a democracia e com o poder civil eleito pelo voto popular que hoje está representado pelo Presidente Lula, que foi consultado e deu permissão para esse pronunciamento.

(Claro está, que a essa altura o Ministro Jobim já foi merecidamente demitido.)

As Forças Armadas sairiam humilhadas depois de semelhante atitude?

Não, a não ser para as pessoas que acham que o respeito se conquista pelo medo.

Os cidadãos brasileiros, ao contrário, veriam aberta a possibilidade tão sonhada e poucas vezes alcançada de unidade de espírito de um povo e seus soldados.

O respeito pela admiração e lealdade.

O que aconteceu no Brasil entre 1964 e 1985 não deve ser esquecido. É exatamente o oposto. Deve ser lembrado e estudado sempre, para que nunca mais se repita. Para que as novas gerações de militares brasileiros não sejam mais educadas no lamaçal ideológico oriundo e remanescente da Escola das Américas dos EUA.

Essa é a mais urgente e importante tarefa de quem quer que seja nosso Ministro da Defesa e nossos comandantes militares.

Que deixem os cargos aqueles que não entendam ou não se sintam à altura da tarefa.

Não devemos e não podemos mais prolongar esse acerto de contas com a nossa própria história.